segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Eu...

Cresci menina insegura, tímida, que gritava aos narizes dos palhaços, que corria nas asas das pombas da Avenida do grande Porto. Sorri, no sorriso da vovó, nos muitos passeios ao Bolhão e, nas suas saias me escondia dos ralhetes na hora das refeições.
O piano tocou para mim e fez-me sonhar que era princesa, no colo do Paco tornava toda a minha fantasia em realidade e a última nota era sempre tocada por mim...
Baloiçava nas varandas de roupa corada, e brincava com tesouros proibidos dos baús vindos de África.
Cresci de malmequeres ao pescoço, borboletas e amoras silvestres, passeios de bicicleta e descobertas no Alvão.
Os meus segredos foram pintados nas folhas espalhadas no chão, sob o olhar de um pai orgulhoso. E no corpo da gata que acompanhou toda a minha infância e juventude treinei as que viriam a ser as minhas melhores carícias, os meus melhores abraços, a minha dedicação ao outro, o amor profundo e genuíno, uma inocência nata, uma verdade que tantas vezes foi só minha... Ainda hoje, mulher feita, procuro muitas vezes, no pêlo macio, no olhar luminoso, o verde da esperança da minha vida e, partilho em gestos delicados os meus pensamento sobre a vida e principalmente sobre o amor, acreditando encontrar alguém tão profundo, livre e verdadeiro como eu...

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